Cora Coralina

1 01UTC Novembro 01UTC 2009 Luísa Publicar um comentário

Fui ver a exposição sobre Cora Coralina no Museu da Língua Portuguesa e recomendo.

Não pude ainda decidir se a pequenez da mostra é um defeito, ou se é mesmo o corte mais adequado às proporções da velhinha e de sua poesia. Cora aparece, na maior parte das fotos exibidas, já naquele momento em que a matéria corporal se transforma numa espécie de éter (e nisso lembrou-me minha bisavó, cuja pele parecia papel de seda amassado e reaberto, e cujos braços pareciam não ter peso nenhum: ossos de isopor, ou melhor, de suspiro).

A miudeza dos temas e a da forma de trabalhá-los me comoveu profundamente, ainda que no meio da multidão e da turba de equipamentos audiovisuais da exposição ao lado, que invade em som e luz o pequeno quintal dedicado a Cora.

A exposição teve, apesar das interferências, o mérito de recuperar através de fotografias a matéria-prima da poesia de Cora Coralina: texturas, sabores, cheiros, temperatura, cores de paisagens grandes e pequenas de Goiás. Os caderninhos expostos, nesse sentido, são um primor, com fotinhos e objetos colados por ela junto aos poemas manuscritos, a caligrafia caprichosa, a coleção de palavras, de apelidos, as receitas. Descobri hoje que a poeta era doceira de mão-cheia, recebendo elogios por isso numa cartinha muito jeitosa de Jorge Amado.

Também pela primeira vez, lembrei de Manoel de Barros lendo Cora Coralina – aliás não sei por que isso só aconteceu agora. Por exemplo:

“No acervo do perdido,
no tanto do ganhado,
está escriturado:
perdas e danos,
meus acertos.
Lucros, meus erros.”

O tamanho da exibição, que me pareceu a princípio muito pequeno, aos poucos me fez perceber que muitas vezes esperamos que homenagens devam ser feitas em grande escala, quando isso não necessariamente implica um impacto no público. Isso posto, entristeceram-me o pouco isolamento acústico do recinto dedicado a Cora Coralina e, um pouco menos, o fato de esse museu tão ultratecnológico, que leva a reprodutibilidade técnica à enésima potência, transformar a matéria-prima sensível da poesia de Cora Coralina em evocação da evocação da evocação, pois sua poesia dá vontade de pisar descalça num chão de terra, cozinhar num fogão de barro, sentar numa tarde quente à janela para espiar a rua, coisas de que as telas, fotografias e áudios só permitem que nos aproximemos de modo muito limitado. Com todos esses senões, a coisa funciona e o mérito é certamente da competência poética da autora, que trabalhava ela mesma multiplicando a matéria da memória e das evocações a esse universo sensível, revelando a profundidade que pode alcançar uma poesia do mundo feminino, de meditações, mimos e caprichos fundados e repetidos no cotidiano.

Alecrinal

6 06UTC Setembro 06UTC 2009 Luísa Publicar um comentário

No casa das tias, já citado neste blog, encontrei uma receita que leva alecrim e, ainda melhor, uma bela definição para o seu perfume: “marinho, solar”.

Contribuindo para o repertório alecrinal, uma amiga me contou que o nome rosmarino (e suas variantes em diversas línguas) vem de “rosa-de-Maria”. Diz-que, em meio à fuga para o Egito, Maria parou à beira de um Rio, lavou seu manto e o pôs a secar sobre uma moita de alecrim, que começou por isso a dar flores azuis como o manto dela. (Adoro a luz azulada que refletem, não só as flores, mas também as folhas das touceiras de alecrim mais desenvolvidas e lenhosas).

Sal de alecrim:

É só fritar os ramos de alecrim fresco em azeite até desbotarem, deixar escorrer em papel toalha, esperar esfriar, aí tirar as folhinhas, que ficaram bem crocantes, passando a mão no sentindo contrário ao das folhas no ramo. Depois, misturar as folhinhas com sal e colocar no que quiser. Vai muito bem em qualquer coisa que não esteja ainda temperada.

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Formas

6 06UTC Setembro 06UTC 2009 Luísa Publicar um comentário

05092009

Incidentes culinários: Tecido de células-biscoito na lâmina-forma

(Receita de http://acasadastias.wordpress.com/2008/09/26/dirty-cookies/)

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Referências para uma carta de intenções

3 03UTC Setembro 03UTC 2009 Luísa Publicar um comentário

Primeira intenção: utopia.

“Em Mangueira
Quando morre
Um poeta
Todos choram

Vivo tranqüilo em Mangueira porque

Sei que alguém há de chorar quando eu morrer”

(Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)

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