Mais uma cidade do norte: Porto Velho, por Íris Morais Araújo
Outubro 10th, 2011 § 1 Comentário
A contribuição de agora é da minha colega Íris Morais Araújo, com quem compartilho ideias e idas a boteco. Seguindo, por acaso, o eixo das explorações de diferentes “nortes” iniciada por Chris Tambascia, ela manda um relato – com direito a PS com gostinho de quero mais – sobre outra grande cidade da Amazônia, Porto Velho, onde a inserção na paisagem Amazônica, a colonização recente e as intensas relações com a fronteira se revelam num repertório gastronômico diversificado.
À guisa de comentário, aponto que na cidade de meus avós maternos, que fica nos confins do estado de São Paulo, come-se uma deliciosa pamonha com queijo, só que da doce (os doces que levam sal sendo um dos meus truques culinários favoritos).
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Estou fazendo pesquisa de campo entre os Karitiana, povo Tupi-Arikém cujo território está localizado em Porto Velho, capital de Rondônia. Entre as idas e vindas das aldeias, tenho descoberto pouco a pouco a diversidade de experiências gastronômicas que essa cidade pode proporcionar.
Consegui até agora apreender três razões para tamanha oferta de sabores. A primeira é o fato de Porto Velho ser parte da Amazônia; fato, aliás, que incomoda de tal modo as elites locais que elas fingem ignorá-lo. Cupuaçu, açaí, macaxeira, dourado, tambaqui, entre tantos outros, são ingredientes manuseados com destreza. Mas também gerações de migrantes e imigrantes, atraídos pelos surtos econômicos e planos desenvolvimentistas que às vezes assolam a região, fixaram-se por aqui, trouxeram seus hábitos e deixaram suas marcas. E a Bolívia, Estado fronteiriço e lugar de passeio inclusive para os menos abastados, não deixa de se fazer presente, ao menos um pouco, no que se come em Rondônia.
São muitas as formas de se deixar levar pelos sabores de Porto Velho. Pelo meu imenso prazer com o que se convencionou chamar baixa gastronomia – acessível a boa parte dos bolsos –, vou falar de dois lugares bem distintos entre eles. O primeiro é a Feira do Porto, ou Feirinha, como é também conhecido, que funciona aos domingos na Praça Aluísio Ferreira. Lá convivem músicos, que entoam os sucessos da vez, artesãos com suas bijuterias, utilidades para o lar e decoração, e cozinheiros de mão-cheia. As escolhas são variadas: as barracas oferecem bolos, delícias de chocolate, comida baiana, galinha picante, tacacá…
Quando estive por lá, acompanhada de meu amigo Paulo Vianna, parei na barraca de pamonha e pedi uma salgada com queijo. Há tempos não comia o quitute, e muito menos salgado – infelizmente incomum em São Paulo, onde moro.
Engraçado que escolhi a pamonha dessa forma porque não havia opção com linguiça (que conhecia de viagens a Goiânia). Acabei me surpreendendo. A parcimônia no uso de temperos – sal e queijo ralado – e a ausência de recheios me fez lembrar que a massa de milho (invenção dos mesoamericanos, não custa lembrar!) cozida não é neutra; tem gosto, tem textura homogênea e consistente. Uma delícia!
Outro lugar adorável de Porto Velho é o Bar do Canto. Esse espaço, que na realidade é uma confeitaria antiga da cidade, está localizado em uma avenida bem movimentada, a Carlos Gomes. A qualquer hora do dia – já estive por lá no meio da manhã, logo após o almoço, no fim da tarde – o Bar do Canto reúne um batalhão de gente atrás de salgados e bolos.
Pois me tornei uma comedora voraz das saltenhas assadas (o lugar também oferece a versão frita) de suas vitrines. O salgado é carne de vaca em Porto Velho e em Rondônia de modo geral – inclusive comi uma na rodoviária de Ariquemes, no interior do Estado. Fiquei felicíssima em saber que é possível, aqui no país, saborear essa delícia.
Mas, para quem está acostumado à saltenha boliviana, é preciso dizer de antemão que há muito de adaptação ao gosto brasileiro… Os salgados que comi (as do Bar do Canto as mais gostosas) são recheados apenas de carne (de boi ou frango) ou, no máximo, carne e ovo. É a nossa regra cumprida à risca: carboidrato é na massa, e no recheio vai a proteína… A impressão que tenho é que batata, ervilha, passas ou outros vegetais, comuns na versão boliviana, soariam como uma picaretagem da parte do comerciante, que assim economizaria no que é caro, e excederia sua voracidade de lucro.
Cumprimento de regras e acomodações à parte, acho bem legal que o paladar faça lembrar que a Bolívia está ali ao lado. Outros sentidos também… Os cheiros dos perfumes importados, os sons e as imagens produzidos pelos badulaques eletrônicos: todos eles são adquiridos a preços bem mais baixos que os praticados no Brasil, por conta dos impostos reduzidos em solo boliviano…
Mas essa é outra história.
PS: Ainda não consigo escrever um post sobre o quê, e de que forma, como com os Karitiana. Talvez ainda fale muito sobre isso. Afinal, se alimentação nunca é assunto trivial, tal matéria é de rendimento impar na América indígena – que digam as Mitológicas, as etnografias produzidas com os Yudjá, Wari’, Araweté, Piaroa… Para leitor mais afoito, que talvez me acuse de, ao mencionar os Karitiana, insinuar um doce no bolso da camisa e não oferecer , recomendo a leitura do artigo de Felipe Vander Velden, “O gosto dos outros: o sal e a transformação dos corpos entre os Karitiana no sudeste da Amazônia” (Temáticas, ano 16, n. 31/32, 2008).
Deu vontade de ir a Porto Velho!