Bom pra pensar: make me one with everything
Outubro 14th, 2011 § Deixe um Comentário
Li hoje um artigo no blog do Alex Castro sobre uma piada onde o Dalai Lama chega a uma pizzaria americana e diz: “make me one with everything”.
A piada teve muita repercussão porque, contada ao próprio Dalai Lama por um jornalista australiano, ela não funcionou. O vídeo desse desencontro já gerou discussões sobre os diferentes pressupostos dos quais uma piada depende, que, no caso, são dominados por (1) falantes da língua inglesa, (2) que conhecem ao menos superficialmente o budismo, e (3) conhecem também a lógica da pizzaria norte americana, como se vê em artigo citado pelo próprio Alex.
Desses pressupostos, o que mais me interessa, aqui, é o da lógica “combo” da comida americana: a incorporação, num mesmo prato, de um número ilimitado de sabores e ingredientes, incorporação cujo único sentido é esse mesmo, o da superposição e da abundância. A superposição parece funcionar nessa culinária como um triunfo da vontade e da liberdade: você pode, nos Estados Unidos (terra dos livres e bravos), pedir uma pizza com “tudo”, sem se preocupar com quaisquer tabus na lista de ingredientes.
Essa coisa da superposição de sabores é engraçada e eu sempre a pensei através da oposição de duas culinárias que prezo: a italiana e a indiana. Fui catequizada na cozinha por um pai de origem italiana – da minha mãe, maravilhosa herege culinária, falo outro dia – que me ensinou o dogma segundo o qual se deve poder identificar cada um dos ingredientes de um prato, e que adverte que usar de sabores muito marcantes, que dominem excessivamente o prato ou que excedam o número de três ou quatro, é arriscar uma confusão sensorial desnecessária (nas suas palavras, “muita informação”). O prazer culinário da comida italiana é, portanto, o da precisão, do domínio dos pontos de cozimento, do equilíbrio exato dos ingredientes, do controle absoluto do “menos é mais”.
Partindo dessa base, fiquei desnorteada quando comecei a explorar a culinária indiana, dotada de um repertório muito variado de temperos em combinações complexas, recorrendo sem pudor a corantes e, não raro, a pontos de cozimento tendendo à dissolução total. Lembro de, num primeiro contato, ter tido muita dificuldade em identificar o que havia nos cozidos, principalmente. Só comecei a acertar a mão pra fazer comida indiana (seria mais preciso dizer “indianosa”) quando percebi que a comida indiana opera pela profusão sensorial, por uma articulação de diferentes pares de contrastes entre os temperos e texturas, que, pra usar uma metáfora extraída do repertório indiano, opera como mandala: uma multiplicidade de simetrias que confunde e explica ao mesmo tempo.
Mas o paradigma do combo americano não é nem uma coisa nem outra. Pois a graça da aglomeração desse tipo de prato é você, não só pôr tudo, mas fazer enumerações de tudo que tem dentro (o que parece resolver a minha dúvida com a lógica dos scanwiches que postei dia desses). Digamos que, entre a culinária americana e a indiana, a frase da piada poderia ter duas ênfases diferentes: a americana, no “with everything”; a indiana no “make me one”.
Claro que essas oposições que estou ensaiando aqui são, como toda comparação, um pouco exageradas – afinal o contraste revelador é uma das graças da comparação. Isso também é um procedimento caro às piadas e, não por acaso, explica seu uso muitas vezes discriminatório. Não me parece ser o caso da piada do Dalai Lama, boa pra pensar no melhor dos sentidos, pois ela põe em choque paradigmas que se opõem exatamente nas ênfases sobre os opostos um X tudo: a pizzaria e o budismo entre os quais a frase inglesa desliza nessa simples enunciação surgem como dois pólos da noção de eu – da quase arrogante afirmação do indivíduo à tortuosa busca pela dissolução da pessoa no universo.