A vida do queijo
Outubro 31st, 2011 § Deixe um Comentário
Quando vou a Minas, sempre tenho a impressão de ser esse o estado cuja população mais espontaneamente valoriza seu patrimônio cultural e histórico, material e imaterial.
Um filme agora em cartaz em São Paulo – O Mineiro e o Queijo, de Helvécio Ratton – trata disso sistematicamente, acompanhando um caso particular, o do queijo mineiro curado.
Transparece muito bem no filme o cuidado cotidiano de muitos mineiros de não aceitar comida industrializada e insípida e de valorizar os procedimentos mais tradicionais de preparo da comida, particularmente a maturação de diferentes produtos, que com isso ganham em sabor (linguiça defumada em cima do forno de lenha, queijo curado de semanas, cachaças ricas e diversificadas). É bonito também acompanhar os rituais de preparo e de apresentação carinhosos, o amor pelo queijo, pelas vacas, pelos tempos e variáveis complexos em jogo no cotidiano da produção do queijo. Esse carinho eu sempre admirei não só na produção do queijo, que pude conhecer quando menina, mas também nas práticas mineiras de servir às visitas quitandas e doces feitos em casa, de ter sempre uma coisinha pronta, um cafezinho.
O filme é feito também a pretexto das insanidades burocráticas que têm impedido a produção dos melhores queijos de Minas, passando por desmandos do poder público, legislações super-restritivas, desencontros entre as diretrizes federais e estaduais. Somam-se a esses os problemas da excessiva higienização a que somos constrangidos cotidianamente e do desprezo de uma certa mentalidade farmacológica pela riqueza que microorganismos diversos trazem à experiência alimentar e à saúde – sobre isso já escrevi um post aqui.
Alguns chefes de cozinha e alguns intelectuais (como o Carlos Dória, que aparece e cuja ONG, Sertãobrás, participou da produção do filme) têm estimulado esse debate, junto à lenta inserção do movimento Slow Food e da produção de orgânicos no Brasil. Às vezes me preocupa a excessiva elitização desse movimento, mas acho que as reações contra a higienização, os agrotóxicos e a industrialização excessivos no Brasil estão ainda começando e podem prodigalizar no futuro. Para alimentar esse fermento, não percam o filme.