Para engordar a terça-feira: doces italianos de Carnaval
Fevereiro 21st, 2012 § 1 Comentário
Na experiência paulistana do Carnaval – com a exceção daqueles que viajam para cidades onde a festa é mais intensa e daqueles que se empenham em fazer o Carnaval paulistano – o feriado acaba ganhando mais o sentido de ser o primeiro descanso ou uma das últimas oportunidades de ir à praia, que da prodigalidade alcoólica, sexual e de pecados outros, preparando por inversão o que já foi um período de contenção, a quaresma.
Me parece curioso que entre os pecados do carnaval brasileiro não entrem os gastronômicos, afinal, em vez de tomar chá com torradas, usa-se tomar parati, muito embora a data máxima do entrudo seja a chamada terça-feira gorda.
Os italianos, claro – como grandes amantes da arte da cozinha e dos repertórios sazonais, mas também como eternos sujeitos à centralidade da igreja católica em seu território – não se esqueceram desse aspecto de prodigalidade e têm um repertório de doces de carnaval composto, em geral, de docinhos fritos e muito açucarados.
Faz sentido do ponto de vista da libertinagem, afinal a soma de carboidrato e gordura é sem dúvida um dos prazeres da vida, e o consumo de tanto açúcar de uma só vez certamente altera os sentidos. E faz sentido também do ponto de vista climático, porque o fim do inverno em fevereiro costuma ser frio que só, e é preciso combustível para as festividades pré-primaveris.
Os brasileiros podem reconhecer em alguns desses docinhos, como nas fritelle, parentes não muito distantes dos bolinhos de chuva. Abrindo um parêntese, sempre me perguntei se o nome desses bolinhos brasileiros vem (1) da rapidez da preparação do prato, similar à das chuvas de verão; (2) da necessidade de distrair a criançada durante uma chuva, enquanto não podia voltar à rua (isso, nos bons tempos em que as crianças brincavam na rua); (3) da necessidade de reforçar os corpinhos infantis contra um possível resfriado com uma comida quente e calórica; (4) por uma aproximação semântica com o formato de gota dos bolinhos ou com a nuvem de açúcar que se despeja sobre eles. Provavelmente tudo isso e algo mais, o que configuraria talvez uma micro-sazonalidade deste prato tropical.
De todo modo, para engordar um pouco mais a terça-feira dos amigos e, de quebra, aumentar o repertório para as nossas chuvas que, se a mudança climática não interferir, ainda devem ir até março, resolvi traduzir duas receitas dos docinhos de carnaval italianos.
Fritelle: como disse, muito similares aos bolinhos de chuva, mas enriquecidas com finezas como raspas de limão e licor de anis. Suponho que, na falta deste último, seja possível substituir por outro licor que orne, pensei logo no finíssimo licor de cachaça mineiro, mas tem também o de jabuticaba… idéias são aceitas nos comentários. Traduzi a receita para os doceiros profissionais, mas confesso que provavelmente eu simplesmente acrescentaria esses ingredientes bacanas, de maneira ponderada, à receita normal de bolinho de chuva. Noto também que esta receita de 500g parece bem pródiga, dá para tutta una famiglia com vontade de se esbaldar no carnaval ou numa chuva inesperada de fim de semana.
Ingredientes: 500 g de farinha de trigo, 150 g de açúcar, 4 ovos, leite, 16g de fermento químico, raspas da casca de um limão, 1 pitada de sal, licor de anis, açúcar de confeiteiro.
(Quanto aos 16g de fermento em pó, não sou uma doceira de precisão, mas os italianos usam o fermento químico em saquinhos com essa quantidade. Talvez aqui seja necessário seguir a intuição, talvez uma colher de sopa cheia, se compararmos com as receitas de bolinho de chuva. Novamente, doceiros, não hesitem em comentar a respeito).
Bater os ovos com o açúcar até obter um composto espumante (os italianos são chiques e escrevem assim), acrescentar as raspas de limão, a pitada de sal, um copo de leite, e um pouco de licor de anis. Amalgamar bem, e, mexendo sempre, acrescentar a farinha, peneirando-a aos poucos. Acrescenta-se ao final o fermento, e se mexe até obter uma mistura homogênea.
Com uma colher, pega-se um pouco da mistura e joga-se numa frigideira com óleo fervente, alguns bolinhos por vez. Quando crescerem e estiverem bem dourados, escorrer, enxugar com papel toalha e dispor num prato. Polvilhar o açúcar de confeiteiro por cima.
Chiacchere di Carnevale: O nome desses biscoitinhos fritos é um charme em si, porque é algo como “conversinha mole”. Mais de um doce italiano tem esse nome, mas esta versão se encontra em qualquer canto em Florença em fevereiro.
Ingredientes: 500 g de farinha, 50 g de manteiga, 4 ovos, 1 colher de açúcar, 3 colheres de grappa, 1 pitada de sal, óleo, açúcar de confeiteiro baunilhado.
(Outra nota sobre ingredientes italianos. O açúcar baunilhado é uma verdadeira obsessão italiana, usado em muitos doces; a certo ponto, viajando por lá, a gente fica até enjoado de tanta baunilha – mentira, a baunilha no brasil costuma ser tão sem vergonha que a gente aproveita o quanto pode. Evidentemente, dá para se virar sem ele, ou então tentar aromatizar o próprio açúcar, como fazem alguns cozinheiros bacanas. Quanto à grappa, fica incrível porque é feita de uva. Na falta dela, talvez desse para usar bagaceira, mas eu hesito então sugiro substituir por rum, ou, quem quiser entrar numa onda mais “tomou parati”, cachaça mesmo – que, aliás, considero mal aproveitada nos nossos doces).
Misturar a farinha, os ovos, o açúcar, a grappa, o sal e a manteiga até obter uma massa consistente. Estender a massa com um pau de macarrão até ficar fina e cortar em tiras. Fritar as tiras em óleo fervente, secá-las no papel toalha, deixar esfriar, polvilhar com o açúcar baunilhado.
Quem quiser se arriscar com receitas em italiano, do lado direito desta página tem todo um repertório a ser explorado.
E boas chuvas de verão!
Acho que precisarei sair em busca de uma padaria italiana, delícia!